13 de julho de 2017

Operação máfia da tora combate organização criminosa especializada em extração de madeiras em terras indígenas

Receita Federal, Policia Federal e IBAMA deflagram operação conjunta em Rondônia
A Polícia Federal, Receita Federal e IBAMA deflagraram hoje (13/07) a Operação MÁFIA DA TORA, com o objetivo de combater organização criminosa especializada na extração irregular de madeira de terras indígenas.
Os grupos investigados agiam nas áreas de preservação permanente da zona rural de Nova Mamoré e no distrito de Vista Alegre, em Rondônia, removendo ilicitamente espécimes vegetais daquelas áreas para revenderem a mercados internos e externos do Estado. A investigação demonstrou que os contribuintes investigados formaram dois grupos distintos que atuavam de maneira similar.
Foi constatado ainda que empresas fictícias, constituídas apenas documentalmente e sem qualquer atividade econômica, foram criadas para dissimular a origem da madeira extraída ilegalmente por meio de fraude no sistema DOF (Documento de Origem Florestal, administrado pelo IBAMA), e emissão de notas fiscais eletrônicas.
O prejuízo aos cofres públicos, pelo não recolhimento dos tributos federais devidos, pode chegar a R$ 6 milhões, segundo cálculos efetuados pela Receita Federal.
Há indícios da prática dos crimes de extração de madeiras nobres em terras indígenas, usurpação de matéria-prima da União, falsificação ideológica, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e associação criminosa, entre outros.
Estima-se que dezenas de milhares de metros cúbicos de madeira tenham sido irregularmente movimentados no sistema DOF para dar ares de licitude aos espécimes vegetais de origem clandestina.
Foram expedidos pela Subseção Judiciária de Guajará-Mirim (RO) 15 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e 5 de condução coercitiva, além da decretação de indisponibilidade de bens pertencentes aos grupos investigados. As ações ocorrem em Nova Mamoré, Guajará-Mirim e Porto Velho (RO) e em Florianópolis (SC). Participam servidores da Receita Federal, da Polícia Federal e do IBAMA.

Além das prisões, buscas e apreensões, haverá lacração e interrupção temporária das atividades das madeireiras investigadas.

Parte dos investigados participa de uma “comunidade do Facebook” denominada “Máfia da Tora”, na qual eram postadas imagens de extrações clandestinas de toras em diversos pontos da região de Nova Mamoré (RO) e ostentados os lucros obtidos com a prática delitiva. Daí a origem do nome da operação.
Haverá coletiva à imprensa às 10h (horário local) na Delegacia da Polícia Federal em Guajará-Mirim (RO) para esclarecer os detalhes da operação. Participarão representantes da Policia Federal, da Receita Federal e do IBAMA.
Entenda a fraude
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Instituto denuncia tratamento “bizarro” de governo Temer com indígenas

Foto _ José Cruz/Agência Brasil. 

Justificando 
em Carta Capital

No início do mês (06/07), uma portaria assinada pelo Ministro da Justiça, Torquato Jardim, foi alvo de críticas por sugerir a “integração social” de indígenas e quilombolas. De acordo com a portaria, a finalidade era de formular propostas, medidas e estratégias de integração em conjunto com representantes da Funai, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Secretaria Nacional de Segurança Pública e Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
Em resposta ao jornal Folha de São Paulo, o Ministério da Justiça informou que: “O Brasil tem um compromisso histórico e a obrigação constitucional de cuidar das demandas indígenas. (…) A portaria será republicada dia 13 com redação em conformidade com as orientações deste Ministério da Justiça e Segurança Pública.”
A resposta também não agradou. O Instituto Socioambiental (ISA), publicou nesta quinta-feira (13), um editorial intitulado de “Indigência indigenista” em que tece duras críticas ao tratamento dispensado pelo Ministério da Justiça aos povos indígenas. 
Leia na íntegra: 
O tratamento da questão indígena pelo governo de Michel Temer continua sendo bizarro. Supunha-se que, com a substituição de Osmar Serraglio por Torquato Jardim no Ministério da Justiça, seria estabelecido um novo patamar de racionalidade no enfrentamento das demandas indígenas.
Porém, a Casa Civil efetivou Franklimberg de Freitas na presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai), consolidando a tutela do PSC sobre o órgão. Também vão se efetivando várias nomeações de políticos para as coordenações regionais da instituição, consumindo o que restou dos cargos de confiança com pessoas sem histórico ou compromisso com os assuntos indígenas.
Mas a semana que passou deu espaço, também, a mais um samba de portarias ministeriais. No dia 6 de julho, Torquato fez publicar a portaria 541, instituindo um grupo de trabalho para promover a “integração social” de índios e quilombolas, composto por representantes da Funai, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Secretaria Nacional de Segurança Pública e Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
Além do nonsense relativo ao fim do ato ministerial, o uso da palavra “integração” suscitou questionamentos sobre a sua legalidade, já que a prática histórica de integração forçada dos índios à “comunhão nacional” foi enterrada pela Constituição de 1988.
Nesta quinta-feira (13), a portaria foi republicada (com o número 546), substituindo-se a expressão “integração” por “organização”. Ao que parece, a emenda ficou pior do que o soneto, dando a impressão de que o governo pretende interferir na própria organização social dos índios e quilombolas.
Vale lembrar que, sob a égide da atual Constituição, deu-se uma aproximação sem precedentes entre os povos indígenas e a sociedade nacional. Há 30 anos, o Brasil sequer sabia ao certo todos os povos indígenas que viviam em seu território e onde exatamente se encontram as suas comunidades. Havia uma distância enorme entre a maioria das aldeias e as cidades. Apenas uma pequena parte dos índios dominava o português.
Sem que a lei preconize qualquer violência integracionista, hoje o Brasil sabe quantos são e onde estão os índios, inclusive pequenos grupos isolados que não mantém contato regular com a nossa sociedade (saiba mais nos sites do ISA Povos Indígenas do Brasil e De Olho nas Terras Indígenas). Os índios dispõem de centenas de organizações próprias, assim como de quadros com formação escolar de nível superior. Cerca de 160 índios elegeram-se vereadores e também prefeitos nas últimas eleições municipais.
Além disso, as demandas indígenas por melhores condições de cidadania, por serviços públicos e para a comercialização de excedentes econômicos pouco têm a ver com as competências de instituições ligadas à Segurança Pública. Seria de se esperar a participação dos ministérios da Saúde, dos Direitos Humanos e do Desenvolvimento Social, entre outros, em qualquer grupo de trabalho destinado à melhoria das condições de vida dos índios, até porque essas pastas são responsáveis por investimentos muito maiores nas comunidades indígenas do que os realizados pelo próprio Ministério da Justiça, ao qual a Funai está vinculada.
Vale lembrar, também, que o governo Temer já havia promovido outra dança das portarias, nesse caso da lavra do então ministro Alexandre de Morais, criando outro grupo de trabalho para analisar as demarcações de terras indígenas realizadas pela Funai e também com republicação posterior, não havendo notícia de seu funcionamento efetivo.
Sob Torquato Jardim, parece persistir a orientação de manter paralisados os processos de demarcação, assim como a titulação de quilombos, sob o pretexto de que há vários casos sob judice, o que, ao contrário, deveria ensejar ainda mais atitudes proativas dos poderes públicos no sentido de solucionar as pendências existentes. O governo “usa” o Judiciário como desculpa para não cumprir a sua obrigação constitucional, sinalizando aos interesses contrários às demarcações que basta judicializá-las para paralisá-las indefinidamente.
Ainda por cima, o orçamento da Funai está arrasado, com forte impacto sobre a prestação de serviços. Enquanto isso, a suspensão de serviços pela Polícia Federal, como a emissão de passaportes, ou pela Polícia Rodoviária, como o patrulhamento das estradas, mobiliza o Congresso para suplementar o orçamento do Ministério da Justiça. Para a Funai, o Congresso dedica uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a criminalizar as organizações e militantes que defendem os direitos indígenas.
Infelizmente, o suposto ganho de racionalidade no Ministério da Justiça não foi suficiente para sustar o descaso das instâncias superiores desse governo com o que resta da Funai e da política indigenista. Que ninguém se surpreenda com as consequências.

Jornalista é condenado por dano moral coletivo após ofensa aos Guarani-Kaiowá

Foto _ Tiago Miotto/Cimi 

MPF/ MS em Cimi

Em Mato Grosso do Sul, o Ministério Público Federal (MPF) conseguiu a condenação do jornalista Walter Navarro por dano moral coletivo em R$ 50 mil. A Justiça Federal considerou que o comunicador extrapolou a liberdade de expressão ao veicular conteúdo ofensivo e pejorativo contra os índios Guarani-Kaiowá em artigo publicado no webjornal O Tempo, de Minas Gerais, em 2012. 
Para o Judiciário, o texto, intitulado “Guarani-Kaiowá é o c... Meu nome agora é Enéas p...”, foi escrito em tom “evidentemente discriminatório”, o que gerou prejuízo à imagem e à moral dos indígenas. Na publicação, Navarro, ao contestar o movimento Somos Todos Guarani-Kaiowá, se reportou aos índios como “insuportáveis”, “incestuosos” e “flatulentos”. O autor defendeu que “índio bom é índio morto” e classificou as mulheres indígenas como “libidinosas”.


Na época de sua veiculação, o conteúdo gerou polêmica entre os leitores, resultando na demissão do jornalista e na retratação pública do jornal. O MPF chegou a pedir explicações a Navarro, que alegou “caráter humorístico” do texto. Contudo, na visão da Justiça, o artigo ultrapassou a esfera da mera crítica e/ou humor.

“A liberdade de expressão não pode ser aplicada para amparar expressões capazes de denegrir e incitar o ódio contra minorias e grupos populacionais que, em pleno 2017, lutam para ver garantidos seus direitos mínimos, como é o caso dos índios”, afirmou o Judiciário.

Para o MPF, a liberdade de expressão é um direito constitucional fundamental, mas é “injustificável permitir que, a pretexto de exercício da liberdade de expressão, sejam veiculadas publicações que se traduzem em incentivo à discriminação”.

Walter Navarro deve pagar indenização de R$ 50 mil pelo dano moral coletivo causado. O valor, inferior ao pedido do MPF, de R$ 100 mil, foi reduzido para se enquadrar à capacidade econômica do réu. O montante será revertido em programas de saúde e de educação na Reserva Indígena de Dourados/MS.

Ministro da Justiça vem ao MS em agosto para visitar áreas indígenas

O ministro visitará o MS a convite do senador Pedro Chaves
Foto Arquivo na Aldeia Buriti/ site jornalcorreioms.com
 Paulo Nonato de Souza em Campo Grande News

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, virá a Mato Grosso do Sul no mês de agosto para conhecer de perto a realidade das áreas em disputa pela posse entre produtores rurais e indígenas, anunciou o senador Pedro Chaves (PSC/MS), nesta quarta-feira, 12.
“A visita deve acontecer em agosto, logo após o fim do recesso parlamentar de julho”, disse Chaves, depois de sair da audiência com o ministro Torquato Jardim, em Brasília.
Segundo ele, o governo federal tem interesse em solucionar definitivamente disputas como as que envolvem a expansão da Aldeia Buriti, nos municípios de Dois Irmãos do Buriti e Sidrolândia, que se arrasta há vários anos e já provocaram, inclusive, mortes.
“A proposta do convite feito ao ministro é de que ele visite a Aldeia Buriti, converse com índios e produtores, e encaminhe uma solução de curto prazo para a compra das fazendas do entorno da aldeia, indenizando os produtores por um preço justo e concedendo aos índios as áreas que eles reivindicam”, revelou o senador.
O encontro desta quarta-feira contou também com a presença do novo presidente da Funai, general Flanklimberg Ribeiro de Freitas, para quem Pedro Chaves relatou que vem tendo encontros frequentes com diversos caciques de diferentes tribos e que inclusive viu de perto a realidade da Aldeia Buriti, numa visita ao local em junho. O parlamentar assumiu com as lideranças indígenas o compromisso de intermediar um acordo em Brasília.
Do presidente da Funai, Pedro Chaves teve a informação de que estão sendo levantadas todas as situações de conflito envolvendo a demarcação de novos territórios indígenas no país e que Mato Grosso do Sul é prioridade.
Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do país e conflitos em diversas regiões, como Sidrolândia, Dois Irmãos do Buriti, Miranda, Dourados, Caarapó e Japorã. “É preciso resolver tudo isso para trazer paz ao campo”, ressaltou Pedro Chaves.
O senador aproveitou o encontro com o ministro da Justiça para reivindicar também recursos para a Polícia Rodoviária Federal. Em função dos cortes de verba impostos pelo governo, a PF está enfrentando problemas de falta de combustível e ameaça fechar vários de seus postos de fiscalização no interior de Mato Grosso do Sul.

11 de julho de 2017

União indígena em defesa do rio Teles Pires

Fotos _ Caio Mota


Por Caio Mota - Centro Popular de Audiovisual
em Cimi
O povo Munduruku da região do alto, médio e baixo Tapajós iniciou sábado uma mobilização em defesa do rio Teles Pires. Cerca de 480 lideranças indígenas deslocaram-se de 21 aldeias para a mobilização. Ao longo dos próximos dias está prevista a chegada de mais lideranças Munduruku na Aldeia Teles Pires, localizada no município de Jacareacanga (PA), onde os indígenas estão reunidos.



De acordo com o cacique geral do povo Munduruku, Arnaldo Kabá Munduruku, a mobilização tem o objetivo de garantir os direitos indígenas e a biodiversidade da bacia do Tapajós que estão sendo violados pelas construções de um complexo de Usinas Hidrelétricas ao longo do Rio Teles Pires. “O povo munduruku se reuniu porque em 2017 tivemos muitas tristezas para o povo munduruku. Nós estamos reunidos antes de ir ao pessoal da empresa. Nós viemos aqui não é para fazer bagunça, estamos aqui para resolver o nosso problema, o problema que é do governo também. Queremos saber como é que daqui pra frente o governo vai trabalhar com o povo indígena, porque estamos vendo que lá no Tapajós já está morto. Estamos em paz, para poder defender nossos filhos e netos, a natureza e a floresta que nós temos”, declarou o cacique em assembleia com o seu povo.
Atualmente na região do rio Teles Pires e por toda a bacia do Tapajós, estão planejadas a construção de 43 grandes UHEs e 102 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). Cerca de 890 mil pessoas serão diretamente impactadas pelos projetos.


O rio Teles Pires é a região mais afetada com quatro grandes usinas em construção, entre elas a UHE Teles Pires que já está operando e a UHE São Manoel que está em fase final de construção. Desde o final de 2010, deram início aos projetos previstos para a bacia do Teles Pires, na esteira de construções como Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará. Obras de alto custo econômico, ambiental e social, as hidrelétricas têm em Belo Monte o maior exemplo de quão danosas podem ser para o contexto das populações que vivem na região.

Justiça
Por causa da mobilização dos indígenas a empresa responsável pela construção da UHE São Manoel, Empresa de Energia São Manoel (EESM), entrou com um pedido na justiça contra qualquer manifestação no canteiro de obras da usina alegando a possibilidade de um “quebra quebra” no local. O Ministério Público Federal (MPF) emitiu, ontem, um parecer contrário ao pedido da usina que foi acatado pelo juiz André Perico dos Santos, da primeira vara federal cível e criminal da subseção de Sinop — MT.


De acordo com a decisão do juiz, não existe motivo para um interdito proibitório no canteiro de obras da usina. O interdito é mecanismo jurídico usado para impedir agressões iminentes e é muito utilizada contra ocupações. “Não existem elementos suficientes para concluir pela existência de concreto receito de agressão a posse, o que constitui óbice ao deferimento do pedido liminar”, afirmou o juiz na sentença.

“O MPF repudia e lamenta a tentativa de depreciação, estigmatização e criminalização de movimentos sociais empreendida pela petição inicial da autora (UHE São Manoel). Pressupor que lideranças de movimentos reivindicatórios ‘incentivem o quebra quebra’, praticamente qualificando-os como arruaceiros e baderneiros, não é somente um preconceito que não encontra base empírica segura, como também não mostra predisposição à colaboração”, afirmou o procurador da República Malê de Aragão Frazão, do MPF em Sinop (MT).

Segundo o procurador, o pedido de liminar feito pela UHE São Manoel “retrata tratamento deselegante com a sociedade civil e amesquinhamento dos direitos constitucionais de reunião, organização e liberdade de expressão”.


O dossiê produzido pelo Fórum Teles Pires (FTP) foi um dos documentos usados para embasar o MPF no pedido de indeferimento do interdito proibitório ingressado na justiça pela EESM. O documento é resultado de um processo de diagnóstico participativo, junto às comunidades indígenas, sobre impactos das barragens no rio Teles Pires.


10 de julho de 2017

Principal jornal britânico destaca descaso de autoridades brasileiras com povos indígenas

The Guardian cita dificuldades do País em cumprir compromissos de preservação ambiental

Situação precária enfrentada por povos indígenas no Brasil é destaque em jornal britânicoElza Fiuza/ABr

O jornal britânico The Guardian, um dos principais periódicos do Reino Unido, destaca nesta segunda-feira (10) a precária situação enfrentada pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e pelas populações indígenas no Brasil. 
A publicação afirma que recentes cortes de recursos destinados à fundação — consequência de novas políticas orçamentárias e medidas de políticos conservadores no Congresso — prejudicam quase um milhão de indígenas no País e colocam em situação de vulnerabilidade as principais tribos brasileiras.
O The Gardian diz ter entrevistado um oficial da FUNAI, diversos líderes indígenas e cientistas. Segundo o jornal, o descaso de autoridades brasileiras com povos indígenas compromete a capacidade do País de cumprir compromissos internacionais em relação a mudanças climáticas e preservação ambiental. A situação da Amazônia — cujo desmatamento cresceu 29% no último ano — também é abordada. 
As dificuldades atuais da FUNAI são comparáveis àquelas enfrentadas no período da ditadura militar no Brasil, de acordo com um dos líderes indígenas entrevistados. Muitos das fontes são citadas anonimamente para evitar represálias, explica o The Guardian.
O jornal ainda aborda o fechamento de dezenas de sedes da fundação e as recorrentes invasões de territórios indígenas por madeireiros e mineiros, além de citar as 37 homicídios de índios nos primeiros cinco meses de 2017 — um aumento de 8 mortes em relação ao mesmo período de 2016.
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9 de julho de 2017

Um ano após um despejo desolador, Apyka'í resiste às margens da BR-463

Thailla Torres em Campo Grande News
Fotos _  Rafael Abreu

Rafael Abreu, de 28 anos, não perde a esperança de ver um futuro digno para os índios de Mato Grosso do Sul. Desde 2011, como jornalista e antropólogo, ele acompanha a briga dessas comunidades com proprietários rurais e uma realidade devastadora para comunidades que vivem às margens da rodovia. Um ano após um despejo desumano, ele descreve no Voz da experiência, o martírio de quem há muito pede socorro.
"No dia 06 de julho de 2017 fez um ano que a Polícia Federal cumpriu o mandado de reintegração de posse expedido pelo juiz federal Fábio Kaiut Nunes, da 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados contra Apyka'í. Ao amanhecer diversos policiais estavam na entrada da Fazenda Serrana, onde resiste o tekoha (lugar de onde se é), liderado pela Dona Damiana, uma das figuras mais interessantes em Mato Grosso do Sul.
A polícia chegou sem avisar a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e a comunidade, que foi pega de surpresa e teve que sair imediatamente de suas casas, enquanto seus pertences eram jogados às margens da rodovia. Em pouco tempo diversos apoiadores da luta indígena apareceram para prestar solidariedade e fiscalizar um das ações mais desumanas realizada pela justiça brasileira.
Em meio ao caos e a turbulência de ver seu tekoha ruir, Dona Damiana desesperada desabafou para o mundo ouvir: "Eu não vou aceitar viver na Jaguapiru ou na Bororo, aqui está meu cemitério. Eu vou ficar aqui. Nós também temos direitos para procurar, não é só branco que tem direito, índio Guarani Kaiowá também tem direito para procurar. Quantas pessoas que morreram por causa da São Fernando, da usina, de pistoleiro. Nove pessoas! Eu vou voltar de novo no meu tekoha", dizia Damiana enquanto a retroescavadeira destruía sua casa.
As reservas criadas pelo Estado brasileiro -  Jaguapiru e Bororo citada por Dona Damiana são duas áreas que juntas formam a Reserva Indígena de Dourados, criada em 1917, pelo Estado brasileiro para acomodar os indígenas, enquanto suas terras eram destinadas a colonização. Foram criadas oito reservas no início do século passado com o objetivo de retirar o indígenas de suas áreas e através das reservas, torná-los "civilizados" e integrados a economia nacional.
Muitos indígenas se negaram a viver nas reservas, quando levados compulsoriamente voltavam para suas áreas e como estratégia para viver no seu tekoha, acabavam trabalhando nas fazendas instaladas em seus territórios. A alta taxa demográfica da reserva e o processo de consolidação mais avançado de uma agricultura capitalista exportadora, tornou-se a vida na reserva inviável para muitos indígenas e a partir dos anos 80, intensificou-se o processo de recuperação de seus territórios.
Dona Damiana é vítima deste processo. Para não viver na reserva criada pelo estado, ela já trabalhou nas fazendas da região e ficou mais de 14 anos acampada em diversos pontos da rodovia esperando pela demarcação do tekoha Apyka'i.
Direito para quem? A Constituição Federal de 1988, apesar de ameaçada pelas manobras da bancada ruralista do Congresso Nacional, reconhece "a organização social, costumes, línguas, crenças, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam", Artigo231. Desde 1999 os indígenas estão revindicando perante o Estado brasileiro o tekoha Apyka'i, vivendo numa das mais graves situações de direitos humanos do mundo.
Desde este período a luta de Apyka'í gerou nove mortes em decorrência da luta pela terra, os corpos estão divididos em dois cemitérios, a maioria deles morreram atropelados. Os indígenas acusam a "pampinha" da Usina São Fernando de atropelar e matar propositalmente parte da comunidade. Nove mortes para uma comunidade que era de aproximadamente 20 pessoas é proporcionalmente uma ação genocida contra Apyka'i.
Uma das faixas como pedido de socorro. (Foto: Rafael Abreu)Uma das faixas como pedido de socorro. 
A fazenda Serrana que incide no tekoha de Damiana é de propriedade de Cássio Guilherme Bonilha Tecchio, foi arrendada durante um bom tempo para plantio de cana-de-açúcar para a Usina São Fernando, que este ano teve sua falência decretada pela justiça de Dourados, em decorrência de suas dívidas com os trabalhadores e empresas que passam de R$ 1,3 bilhão.
Esta usina foi financiada com dinheiro público, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Banco do Brasil, 540 milhões de reais investidos num negócio privado, numa parceria entre José Carlos Bumlai, um forte pecuarista e a família Bertin (ex-donos de frigoríficos financiados pelo BNDES, que posteriormente foram comprados pelo concorrente JBS).
A Usina São Fernando é resultado de um delírio desenvolvimentista no setor energético operacionalizado pelo ex-presidente Lula, ex-senador Delcídio do Amaral e o pecuarista e mega empresário do setor de energia, José Carlos Bumlai, preso em uma das fases da operação Lava Jato.
Em 2007 os Estados Unidos estavam enfrentando uma forte alta nos preços da carne e do etanol, ambos feitos do milho, que com a forte demanda levou os presos a patamares altíssimos. Neste mesmo ano George Bush Filho, presidente do EUA, na época, fechou acordo com o Brasil para receber parte da produção de etanol. Esse acordo gerou um boom no setor e Mato Grosso do Sul começou a romper o binômio boi/soja e passou a ser um dos principais estados na produção de etano, com dezenas de usinas construídas.
Em 2013, o fogo da queima da cana-de-açucar que estava na área de Dona Damiana, chegou até a margem da rodovia, onde estava seu acampamento, que além de colocar a vida da comunidade em risco, destruiu todos os seus pertences. Cansados de esperar os indígenas entraram na área da Fazenda Serrano e ocuparam aproximadamente 3 hectares, sem prejuízos para a plantação da usina e nem para os 615 mil de hectares de cana-de-açucar plantado em Mato Grosso do Sul, segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
Situação atual - Alguns dias antes do despejo, 29 de junho de 2016, a FUNAI publicou a Portaria nº 560 que criou um Grupo Técnico (GT) necessário para o procedimento de identificação e delimitação da Terra Indígena de Apyka'í. A justiça federal ignorou a portaria e aplicou o despejo da comunidade, colocando-os na margem da BR-463.
A versão preliminar do relatório de identificação era para ser entregue em maio de 2017, conforme documento assinado pelo ex-presidente da FUNAI, Antônio Costa no dia 23 de março deste ano, na sede do Ministério Público Federal (MPF) de Dourados. Desde a reintegração de posse a comunidade não consegue acessar os cemitérios de Apyka'í, que é tão importante para a sua religiosidade e cultura.
Na beira da rodovia, expostos a diversas situações de riscos, uma resposta do Estado brasileiro, que nos últimos anos pouco avançou na demarcação das terras indígenas, descumprindo a Constituição Federal e diversos acordos firmados com as lideranças indígenas. Deixem Apyka'í viver!"